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09/09/2008 - A Chinchila em

TESE APRESENTADA À FACULDADE DE MEDICINA DA USP

 

A Dra. Márcia Sayuri Murao, entregou a Achila a sua tese de doutorado concluída e apresentada na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo sob o título:

 

Uma via de acesso ao nervo vestibular em chinchilas

 

An approach to the vestibular nerve in chinchillas

 

Márcia Sayuri Murao*, José Alexandre Médicis da Silveira**, Guilherme Carvalhal Ribas***.

 

* Médica Doutoranda do Curso de Pós-Graduação da Divisão de Clínica Otorrinolaringológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

 

**Doutor em Otorrinolaringologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

 

***Professor Assistente Doutor da Disciplina de Topografia Estrutural Humana da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

 

Trabalho realizado no Laboratório de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – LIM 32.

 

Endereço para correspondência: Márcia Sayuri Murao – Rua Dona Cota, 177, sala 202, Vila Pinto – Varginha / MG – CEP 37010-560 – Telefone: (35) 32212730 – FAX: (35) 32127417.

E-mail: marciamurao@hotmail.com

 

Resumo

Os neurônios eferentes olivococleares se originam no tronco cerebral e terminam no Órgão de Corti, através do nervo vestibular. Embora existam inúmeros estudos anatômicos e fisiológicos sobre o sistema eferente, sua importância funcional ainda não foi totalmente esclarecida. A secção do nervo vestibular em chinchilas é um modelo experimental já utilizado para o estudo deste sistema, entretanto, os tempos cirúrgicos são pouco detalhados. Realizou-se uma abordagem cirúrgica, via occipital, para acesso ao nervo vestibular no conduto auditivo interno, em chinchilas vivas, dando ênfase aos aspectos anatômicos do osso temporal destes animais. O procedimento foi relativamente rápido, com sangramento controlável e, possibilitou uma visão direta do nervo vestibular, com mínimo dano ao tecido cerebelar.

Unitermos: osso temporal, chinchila, sistema eferente coclear.

 

Summary

Olivocochlear efferent neurons originate in the brain stem and terminate in the organ of Corti through the inferior vestibular nerve. Whereas there is considerable study about anatomy and physiology of the efferent system, its functional significance is still unclear. Vestibular neurectomy in the chinchilla is just used as an experimental model for study of such system, wherever the details of surgical times are poor. An approach, via occipital, to the vestibular nerve in the internal auditory canal in alive chinchillas is presented. Anatomical landmarks of temporal bone in these animals were well described. The procedure was relatively quick, the bleeding could be controlled, and a direct vision to the vestibular nerve was possible, with a minimal removal of cerebellar tissue.

Key words: temporal bone, chinchilla, cochlear efferent system.

 

Introdução

A inervação da cóclea consiste essencialmente de três componentes: neurônios aferentes, neurônios eferentes (1) e uma inervação adrenérgica autonômica (2). Os neurônios eferentes originam-se no sistema nervoso central, ao nível do complexo olivar superior e alcançam a periferia com o nervo vestibular e a anastomose cócleo-vestibular de Oort (3). Apesar do profundo conhecimento anatômico e fisiológico do sistema eferente, muitas dúvidas ainda não foram esclarecidas sobre sua importância funcional no processo auditivo (4,5). Vários estudos experimentais são realizados na tentativa de elucidar dúvidas sobre seu verdadeiro papel.  Uma das formas utilizadas para seu estudo é através da secção de suas fibras no assoalho do quarto ventrículo (6,7,8) ou, através da secção do nervo vestibular inferior (5,9), em animais de laboratório, aliado ao estudo eletrofisiológico da cóclea.  O objetivo deste trabalho é descrever uma via de acesso ao nervo vestibular em chinchilas, de forma clara e com descrição anatômica detalhada de seu osso temporal. 

 

Anatomia do osso temporal da chinchila – Visão da fossa craniana posterior

As chinchilas têm sido utilizadas rotineiramente em pesquisas na área da otologia há mais de 30 anos (10). A anatomia do osso temporal nestes pequenos roedores foi descrita pela primeira vez em 1978 (11), facilitando cirurgias da orelha média. O osso temporal da chinchila é o maior osso de seu crânio. A bula dorsal é facilmente palpável sendo a principal referência anatômica (Fig. 1). Na face medial do osso temporal, observa-se a fossa para a paraflocula cerebelar superiormente e, inferiormente, o conduto auditivo interno com os forâmens para os nervos vestibular superior, facial, vestibular inferior e coclear (Fig. 2).  Os nervos, coclear e vestibular inferior, estão localizados caudalmente aos nervos vestibular superior e facial. O nervo vestibular está posicionado mais lateralmente e o nervo facial, medialmente. Os seios venosos são intra-ósseos ao invés de se localizarem na dura-máter.

 

 

Material e método

Foram utilizadas oito chinchilas (Chinchilla laniger), adultas, do sexo masculino, pesando entre 500 e 750g. A via de acesso ao nervo foi baseada no procedimento cirúrgico em “guinea pig” (12). A anestesia foi realizada com cloridrato de cetamina (Ketalar®) e xylasina (Rompum®) intramuscular na proporção de 2:1, respectivamente, com volume total de 1ml/kg. Utilizou-se um colchão térmico para manutenção da temperatura retal em torno de 37°C, devido à facilidade de hipotermia nestes animais anestesiados. A tricotomia da região retroauricular foi realizada e, em seguida, procedeu-se à incisão da pele. Através de um retalho quadrado, visualizou-se facilmente a bula dorsal bilateral e os músculos da região occipital. A musculatura foi desinserida do osso occipital e da bula mastoídea anteriormente. A osteotomia iniciou-se com um perfurador utilizado em estapedotomias, com o cuidado de sempre ficar o mais superficial possível. O local escolhido para osteotomia, não ofereceu o risco de lesar os seios venosos (Fig. 3). Ampliou-se o orifício com bisturi lâmina 11 chegando a aproximadamente 6mm de diâmetro na forma de círculo. A dura-máter foi então visualizada e incisada. Um pouco de líquor extravazou nesta etapa. Uma parte do cerebelo foi aspirada para visualização da fossa para a paraflocula cerebelar, por ser a referência do conduto auditivo interno, e sempre estar posicionada cranialmente ao mesmo (Figs. 4 e 5). Sangramento nesta fase da cirurgia é muito comum, porém controlável. O nervo vestibular foi então identificado na entrada do conduto, sem dificuldade por ser mais lateral, e seccionado através de um ponteiro tipo baioneta com a extremidade da ponta curva (utilizado em cirurgia otológica). A cavidade foi preenchida com gelfoam e a pele foi suturada com fio mononylon 4.0.

 

Este experimento está de acordo com as normas do COBEA (Colégio Brasileiro de Experimentação Animal) e do UFAW (The Universities Federation for Animal Welfare), aprovados pela Comissão de Ética da FMUSP.

 

 

Discussão

Existem dois tipos de neurônios eferentes, os que se originam lateralmente ao complexo olivar superior, denominado de sistema eferente lateral (SEL) e, os neurônios que se originam medialmente ao COS, denominado sistema eferente medial (SEM) (13). O SEL é principalmente ipsilateral à cóclea, enquanto que, o SEM cruza a linha média ao nível do assoalho do quarto ventrículo sendo, portanto, principalmente contralateral. As fibras contralaterais se unem às fibras ipsilaterais e, pela via vestibular ainda na sua origem, alcançam a cóclea através do nervo vestibular inferior e a anastomose cócleo-vestibular de Oort (3). Os neurônios do SEL não são mielinizados e fazem sinapse com os dendritos das fibras cocleares aferentes abaixo das células ciliadas internas e, os neurônios do SEM são mielinizados e fazem sinapse diretamente na base e dos lados das células ciliadas externas (13,14). Clinicamente, pouco se sabe sobre o SEL. O SEM é o mais estudado e, por inervar predominantemente as células ciliadas externas, com a descoberta das emissões otoacústicas, cresceu muito o interesse sobre seu verdadeiro papel. A inervação eferente do sistema auditivo se originando do tronco cerebral é encontrada praticamente em todas as espécies, do peixe ao mamífero [Strutz apud Spoendlin (1)]. A distribuição da inervação eferente na cóclea tem sido descrita no rato (15), no “guinea pig” (16), no gato (17) e na chinchila (18). De acordo com estes estudos, as grandes terminações nervosas nas células ciliadas externas, pertencem à inervação eferente medial. A acetilcolina é o principal neurotransmissor das vias eferentes (19).

 

 

Com a finalidade de estudo experimental, comumente é realizada a secção do sistema eferente medial ao nível do assoalho do quarto ventrículo (6,7,8,20) ou ao nível do nervo vestibular inferior (5,9). Entretanto, tem sido observada a persistência de acetilcolinesterase na região das células ciliadas externas após a efetiva secção do SEM ao nível do assoalho do quarto ventrículo (21,22). Sabe-se que o SEM contralateral supre 2/3 da inervação eferente das células ciliadas externas (13). Portanto, com a secção do SEM ao nível do assoalho do quarto ventrículo, restaria 1/3 do SEM ipsilateral. Conseqüentemente, os resultados eletrofisiológicos após a secção do SEM ao nível do assoalho do quarto ventrículo poderiam, ainda, estarem sob influência deste neurotransmissor. A abordagem mais efetiva, portanto, seria a secção ao nível do nervo vestibular (1).

 

Apesar da anatomia fácil em chinchilas, da bula ser grande e de seu osso ser muito fino, a vascularização desta região é o maior obstáculo a ser enfrentado para acesso às estruturas do conduto auditivo interno (11). Pelo fato dos seios venosos da região serem intra-ósseos, ao invés de intra-durais, podem ocorrer sangramentos durante a osteotomia. No procedimento cirúrgico de Bárbara et al. (12) em “guinea pig”, foi necessária a utilização do motor com broca de diamante e o isolamento do seio sigmóide. Na nossa opinião, o uso do motor poderia influenciar as respostas das emissões otoacústicas caso fosse necessário sua realização no pós-operatório (trauma acústico), além disso, o isolamento do seio sigmóide, poderia fazer com que a cirurgia se tornasse mais demorada e com risco aumentado de lesão vascular. Na via de acesso descrita, a osteotomia foi realizada abaixo do seio sigmóide, sem o risco de inadvertidamente, lesar algum seio venoso. Em relação à secção do nervo vestibular, vários trabalhos na literatura relatam a secção de seu ramo inferior para estudo do sistema eferente medial (5,23,24). Na nossa experiência, esta abordagem requer mais manipulação dos nervos do conduto auditivo interno, para o seu perfeito isolamento, com o risco aumentado de lesão direta do nervo coclear e/ou da artéria coclear, que estão localizados imediatamente abaixo do nervo vestibular inferior.  Baseado na anatomia previamente descrita, a secção do nervo vestibular, antes da sua divisão em superior e inferior, abole o SEM (fibras contralaterais e ipsilaterais), com a vantagem de diminuir o risco de lesão ao nervo e à artéria coclear. O nervo vestibular, por estar posicionado mais lateralmente, é o primeiro nervo a ser visualizado na cirurgia.

 

Conclusão

O perfeito entendimento da técnica cirúrgica para acesso ao nervo vestibular é de grande importância para os experimentos na área da otologia, principalmente para o estudo do sistema eferente. Com a descrição anatômica detalhada da face medial do osso temporal em chinchilas, e com esta via de acesso cirúrgico ao conduto auditivo interno, objetiva-se facilitar os experimentos em laboratório quando for necessário o uso destes animais.

 

 

Agradecimentos

Agradeço o Presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Chinchila laniger, Sr. Carlos Luis Perez, pela colaboração em ceder os animais estudados neste trabalho.

 

Referências bibliográficas

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Legendas

 

Figura 1 – Visão lateral do osso temporal. 1- Bula dorsal, 2- Bula mastóidea, 3- Bula labiríntica, 4- Conduto auditivo externo.

 

Figura 2 – Visão medial do osso temporal. 1- Fossa para paraflocula cerebelar, 2- Conduto auditivo interno com os forâmens para o nervo coclear (a), nervo facial (b) e nervo vestibular (c), 3- Forâmen magno, 4- Bula dorsal.

 

Figura 3 – Visão superior do osso temporal. 1- Bula dorsal, 2- Bula mastóidea, 3- Bula labiríntica, 4- Forâmen magno, 5- Osteotomia no osso occipital.

 

Figura 4 – Visão medial do osso temporal. 1- Estilete apontando para a fossa da paraflocula cerebelar, 2- Estilete apontando para o conduto auditivo interno, através da osteotomia no osso occipital.

 

Figura 5 – Visão medial do osso temporal. 1- Estilete na direção do nervo vestibular (a) no conduto auditivo interno, através da osteotomia occipital. 2- Bula dorsal, 3- Forâmen magno.

 

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